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ENTREVISTA DE MANOEL ADEODATO
Posted by Savitri Lua in Entrevistas on 23 de agosto de 2009

Turismo rural ecológico e agricultura familiar baseada na agroecologia: resgatando a cultura camponesa na Chapada Diamantina
Vários projetos e experiências concretas, associando a agricultura familiar e uma prática de turismo de base camponesa, vem crescendo no Brasil com resultados positivos para a população rural. É a redescoberta dos moradores das cidades de que o campo tem muito mais a oferecer do que apenas produtos agrícolas ou hotéis-fazenda. Pequenos produtores rurais, organizados em cooperativas ou associações, ampliam as possibilidades de integração do campo com o meio urbano, segundo uma perspectiva pedagógica e convivencial. Pois a proximidade de formas sustentáveis de produção agrícola, baseada na agroecologia[1], propicia uma sensibilização dos visitantes para questões sócio-ambientais e culturais, unindo o prazer ao aprendizado, a contemplação e a paz interior.
O Caderno Virtual de Turismo visitou a hospedaria camponesa Terra Mater – Turismo Rural Ecológico, na Chapada Diamantina, interior de Bahia. Os coordenadores do projeto são os agricultores familiares, Adeodato Menezes e Telma Ribeiro, que produzem café biodinâmico[2] certificado e pertencem à Associação Biodinâmica dos Agricultores e Agricultoras de Ibicoara (ABDI)[3]. Adeodato nos explicou como surgiu a proposta agroecológica da Terra Mater e da agricultura familiar baseada na agroecologia, destacando a importância do apoio a um turismo de base camponesa para promover um desenvolvimento social, ambiental e cultural de base local
CVT – Como teve início o Projeto Terra Mater e a relação do turismo com a agricultura familiar na região?
Adeodato – A Terra Mater foi um projeto inicial de “comunidade rural alternativa” iniciada em 1975 e na Chapada Diamantina em 1982. Nós tínhamos como proposta a resistência ao modelo de agricultura dominante e ao modo de vida consumista capitalista. Começamos, então, a construir os caminhos da agroecologia e o turismo rural ecológico veio em decorrência dessa proposta. Tínhamos esse espaço e a “comunidade alternativa” não estava mais funcionando enquanto tal. O que deu início à idéia de turismo foram as visitas que recebemos de interessados na construção da agroecologia. Isso nos fez começar esse trabalho e usar o espaço para encontros com agricultores familiares, estudantes de agronomia e de alunos das escolas públicas da região. A gente percebeu que, tendo um espaço grande que era originalmente para a “vivência comunitária”, poderíamos hospedar as pessoas. Mas esse é um turismo da cultura camponesa e do campesinato. A diferença do turismo em geral é que nós queremos mostrar para as pessoas da cidade a “tradição camponesa” e valorizar a produção agrícola baseada na agroecologia. Fazer com que as pessoas passassem a perceber a importância de produzir com ética e responsabilidade. Por isso fazemos questão de construir uma identidade camponesa.
CVT – Como tem sido o encontro entre o meio rural e os turistas urbanos?
Adeodato - Tem sido muito saudável esse encontro nosso com as pessoas da cidade, que são das mais diversas profissões, e que querem ter algum contato mais próximo com a natureza. A realidade é que temos uma infra-estrutura simples. Não temos luxo, temos conforto, tranqüilidade, contemplação, paz interior, comida caseira deliciosa e com alto valor biológico elaborada com consciência em forno e fogão de lenha com alimentos puros da horta e do pomar biodinâmicos, enfim, uma íntima e deliciosa convivência e interação com a natureza viva, com uma agricultura responsável e com a cultura camponesa.
CVT – Qual é a proposta da Associação Biodinâmica dos Agricultores e Agricultoras de Ibicoara ABDI?
Adeodato - A ABDI é uma organização camponesa da Chapada Diamantina, com uma visão crítica do modelo agrícola dominante, formada por agricultores e agricultoras orgânicos e biodinâmicos, que lutam pelo reconhecimento da extraordinária importância da agricultura e da auto-estima da comunidade camponesa. Ao mesmo tempo, busca o cumprimento da responsabilidade política, social, ambiental e cultural da produção agroecológica e sua justa e merecedora viabilidade econômica.
CVT – Como é o turismo ecológico na Chapada Diamantina?
Adeodato - Aqui na Chapada Diamantina acontece o turismo ecológico, o turismo das belezas naturais. Mas acreditamos que o turismo ecológico é muito mais do que só observar as belezas naturais. Queremos ir além disso e manter uma convivência mais próxima com a terra enquanto organismo vivo, com a fauna e flora, com as pessoas do lugar e o modo como elas vivem e entendem o mundo. O resultado que para nós é interessante; valorizamos a convivência e a interação respeitosa. Não tem ninguém até hoje que tenha vindo aqui na Terra Mater e não tenha criado um vínculo de amizade e solidariedade. Mesmo que cheguem mais distantes no início, depois se aproximam e sempre retornam como amigos e amigas. E isso é realmente prazeroso.
CVT – Você conhece outras experiências que fazem um tipo de turismo parecido com a proposta da Terra Mater?
Adeodato - Aqui só nós fazemos esse trabalho de turismo ligado à agroecologia e à convivência camponesa. Mas no Sul e em Minas Gerais também existem experiências de turismo rural. A nossa tem a ver com a construção da agroecologia e da camposenia. Entendendo agroecologia como ciência e princípios norteados para a reconstrução da agricultura de base ecológica, social e cultural, com ética e responsabilidade. E entendendo camposenia como resgate do sentimento, da auto-estima, da cultura, da identidade campesina, do orgulho de ser camponês e camponesa, e seu reconhecimento pela sociedade consciente e responsável das cidades.
CVT – O que seria importante para apoiar essa proposta alternativa de turismo?
Adeodato - Acho que seria importante a ampla divulgação dessa idéia, promover a vinda de mais pessoas da cidade para o campo. Os hotéis fazenda em sua maioria tiveram origem no fracasso na atividade agrícola e tiveram no turismo a oportunidade de se reerguer. Não queremos interromper a produção agrícola para fazer turismo. Queremos vincular o turismo à produção com responsabilidade agroecológica. É uma forma de trazer uma outra renda para o agricultor familiar, apesar dessa forma de turismo ainda carecer de uma freqüência e constância maior.
CVT – Como você vê o papel das políticas públicas nessa proposta?
Adeodato - O PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) tem um financiamento para a agroecologia e turismo rural, mas não sei se essas políticas são aproveitadas. Muitas vezes os bancos não facilitam para que a família camponesa acesse o financiamento disponibilizado. O apoio financeiro é importante e a divulgação também, inclusive pela secretaria de turismo local. É importante dar informação para ter público procurando.
FONTE: CADERNO VIRTUAL DE TURISMO (http://www.ivt-rj.net/caderno/)
